A muito tempo atrás, em meados da década de 90, eu e meu Mega Drive éramos grandes e inseparáveis amigos. Alugava tudo e todos os jogos disponíveis nas locadoras do bairro, e assim eu passava os finais de semana detonando aquela montoeira de games, um seguido do outro, até o meu amiguinho esquentar tanto que dava pra ver o ar se deformar em cima dele. Foi nesta época que eu conheci Shinobi, o ninja fodão da Sega que primeiro atirava seus shurikens assassinos para só depois perguntar se o fulano queria encrenca ou só estava indo na padaria.
Revenge of Shinobi era o jogo, e este foi um daqueles que bateu recordes de permanência ligado no aparelho: esquentou pra dedéu, a fonte na tomada emitia um calor tão forte que bastava passar perto para notar, e o motivo era nobre: apesar das broncas de minha mãe, eu não ia desligar o aparelho nem ferrando para dormir, pois eu não abriria mão das minhas vidas e dos meus continues mas de jeito nenhum! Velhos tempos… Que saudade!
Virei fã de Shinobi, e isso em uma época em que eu nem sabia quem era o homem por baixo daquela máscara branca. Mas eu sabia de uma coisa: o arcade dele era sensacional, apesar de completamente diferente e de mostrar o ninja sem a máscara. Foi então que me apareceu um amigo daqueles fanfarrões que raramente a gente podia levar a sério o que eles falavam, me dizendo que o Mega Drive tinha um game que era uma mistura dos dois games, e que o nome era The Secret of Shinobi… Tá, senta lá Claudia… Mas é claro que eu eu não acreditei. As duas locadoras do bairro possuíam somadas centenas de jogos, e a fonte da informação não era nem um pouco confiável, de modo que minha vida seguiu normalmente até o dia em que a existência do jogo foi-me comprovada em uma visita à Pro Games, antiga rede de locadoras aqui de São Paulo: um ninja branco na capa prestes a descer sua espada mortal sobre o corpo do meliante, o nome The Secret of Shinobi descrito no pé da imagem, e logo acima dele, o que mais me chamou a atenção, o título Shadow Dancer escrito em letras garrafais.
Loucura, aluguei na hora, corri pra casa e comecei a contar as horas que me restavam naquele sábado, pois já começava o cair da tarde e se aquele jogo fosse tão longo quanto Revenge of Shinobi, o final de semana seria bem curto para ele. Mais tarde eu descobriria que aquele já capado final de semana seria mais do que suficiente para detonar Shadow Dancer, mas o que realmente importou não foi isso: foi o que eu presenciei enquanto isso não acontecia.
Shadow Dancer era um jogo completamente diferente, sólido, de trilha sonora espetacular e lindos gráficos, tudo isso me chamou a atenção imediatamente assim que comecei a jogar. O deslumbre visual que tive foi absurdo, demorei para me localizar no game pois eu ficava admirando os cenários enquanto tentava avançar sem sucesso por entre aquele monte de inimigos que nos matavam com uma cacetada só. Pois é, diferentemente de Revenge of, Secret of não tem barra de energia, e se algo acertar o ninja ele morre instantaneamente. O bom é que não se morre por esbarrão, só mesmo com golpes e projéteis atirados em nós, e quando esbarramos em alguém, ambos são empurrados para trás com um típico som oco de batida que se torna muito familiar depois de algum tempo jogando.
O jogo teria ficado bem difícil mesmo, assim como aquele arcade papa fichas que eu conhecia já de longa data, mas um fator em especial foi crucial para balancear a dificuldade do game, e de quebra, diferenciá-lo de qualquer outro do gênero que pudesse existir em algum console da época: a presença do canino Yamato, um lobo branco que atacava os inimigos com fúria e os imobilizava para que o ninja pudesse dar cabo deles com a maior tranquilidade possível. Yamato podia ser acionado facilmente e a qualquer hora, não era invencível e se transformava temporariamente em um cãozinho filhote quando acertado pelos projéteis inimigos, e foi uma adição espetacular na jogabilidade de Shadow Dancer, que já era muito boa como de praxe dos games de Mega Drive, mas que ganhou um toque genial de originalidade e estratégia na hora de decidir como e quando investir no ataque.
O game se mostrou relativamente curto, mas com etapas memoráveis onde o objetivo principal era o de resgatar todas as crianças sequestradas, que estavam localizadas em pontos específicos de cada cenário, e nos finalmentes, enfrentar um chefe de fase quase sempre bem maior que o nosso personagem, mas bem menos complicados do que aparentavam ser. Para isso, o ninja desferia poderosos golpes de espada que pulverizavam inimigos próximos, e abusava do uso das Shurikens, estrelas ninjas caso você desconheça o termo, e os power ups encontrados durante a aventura englobavam um upgrade nessa categoria que as tornavam muito mais poderosas além de garantir que o ninja pudesse receber uma porrada extra sem morrer, pois apenas o upgrade era perdido. Magias e evocações ninjas também marcam presença no game, e o herói tem um leque bem interessante delas para serem usadas com muito cuidado, pois o número de vezes que podemos utilizá-las durante as etapas é bem restrito.
Uma parte muito legal do game é a fase bônus que acontece ao final de cada uma das etapas: Shinobi pula de um prédio e durante a decida, vai atirando shurikens para baixo de modo detonar ninjas inimigos que vão aparecendo ricocheteando entre as paredes, e ao término da descida, ganhamos algumas vidas em um número que varia de acordo com a quantidade de mequetrefes abatidos. Dá pra ganhar até 3 vidas nessa brincadeira, coisa muito bem vinda em um game onde a morte é algo instantâneo em sua maior parte.
À noite, no início da madrugada do Domingo, eu já havia terminado o game, e não estava surpreso por ele ser tão mais fácil e curto que aquele primeiro game do Shinobi que me havia exigido tantas e tantas horas de dedicação e uma noite inteira de videogame ligado só para não ter que fazer tudo de novo. Eu estava surpreso era com a qualidade que aquele game tinha, maravilhado com seus gráficos super caprichados, com aquela jogabilidade perfeita, e fui dormir sabendo que eu podia desligar o videogame sem problemas que no dia seguinte, eu iria fazer tudo de novo com o maior prazer… E foi o que aconteceu, várias vezes seguidas.
Somente muito tempo depois eu fui ficar sabendo que Shadow Dancer era um game que não fazia parte da franquia Shinobi, protagonizada pelo lendário ninja mascarado Joe Musashi. Em Shadow Dancer, o ninja é o filho deste, e seu nome é Hayate. Bem, não fez diferença para mim na época, por quê faria agora depois de tantos anos?
Apesar de ser um game do padrão decoreba, Shadow Dancer não é um game enjoativo e nem difícil. A verdade é que este é um daqueles títulos que dá vontade de jogar sempre só pelo prazer de melhorar nossa performance frente a TV, e foi o que eu fiz a pouquíssimo tempo atrás, enquanto conversava com amigos pelo skype relembrando como era bom detonar ninjas inimigos com nosso cãozinho assassino. Shadow Dancer é um grande jogo, uma franquia que a Sega deveria ter dado mais atenção, pois ela tinha absolutamente tudo para ir muito mais longe do que foi, talvez até mais do que a sua franquia mãe, Shinobi. Mas a Sega sempre foi famosa por criar muito e deixar de lado depois e, infelizmente, Shadow Dancer acabou sendo apenas mais um capítulo deste triste fato.
Fim

O slogan do antigo RetroPlayers ainda vale pra mim: “também to morto mas tô aí!”
E muito bem acompanhado =)